Menina e o gato Mali-Mali

Vivia num medo descontido e acordava de cama molhada todos os dias.  Dormia com perigos, monstros horríveis, bruxas e cidades mal-assombradas nas quais se via sozinha - ninguém por perto se precisasse gritar por socorro.

- Ai ai ai que medo, me ajuda mamãe!

E abria os olhinhos assustados enquanto apertava os dedos da mãe aflita. Toda noite a garota, a mãe, o medo, o suor, o consolo. “Foi só um sonho meu anjinho, só um sonho ruim” - dizia a mamãe desolada. E assim, os dias iam passando um a um pela vida da Menina: brincadeiras e fantasias no claro, pesadelos no escuro.

Pois foi num desses dias coloridos e quentes de verão, bem num desses dias de diversão com esguicho e escaladas em árvores, que Menina perdeu seu primeiro dente-de-leite. Mas veja só que alegria, a melhor parte de se conquistar um sorriso assim tão banguela é a garantia de desejos realizados! Mamãe não tardou a avisar:

- Para quem perde o dente, fadinha traz surpresa de presente!

E agora, Menina queria mesmo era ser surpreendida virando gente grande e perdendo o medo do sonho ruim.

Naquela noite, com o dentinho colocado debaixo do travesseiro, Menina adormeceu ansiosa pela manhã seguinte. Durante o sono, os mesmos perigos de sempre: dragões, fantasmas, feiticeiros malvados e, de repente, um gato. Mas dessa vez não era um gato preto do tipo que anda com bruxas, era um gato colorido, de pelos macios, falante e tranquilo que só ele.  Chegou-se perto, olhou-a nos olhos e num miado longo debandou a explicar seu destemor:

- Mas se há tanto tempo ando miando por aqui, se mal tiverem a fazer, não é meu medo que irá os impedir!

Pela primeira vez, Menina sentiu-se segura e passou a olhar tudo de um jeito diferente. E não é que as pobres bruxas nem eram tão feias assim? Os feiticeiros não faziam maldades e os monstros eram criaturas mais medrosas do que ela.

Na manhã seguinte, quando Menina abriu os olhinhos, a luz do sol entrava de mansinho pela janela do quarto. Sua cama estava seca como há tempos não estivera, a mãe nem sequer dormia a seu lado. Ao invés disso, um gato com laço de fita no pescoço esparramava sua preguiça aos pés da cama.  Debaixo do travesseiro já não havia mais nenhum dente, só um bilhetinho que dizia assim:

Agora já pode enfrentar seus medos, Menina Corajosa. Mali-Mali lhe ensinará os pequenos segredos que aprendeu um dia com as zebras. É que este não é um gato qualquer, mas um gato que fora criado entre os cavalinhos de pijamas, e cavalinhos de pijamas - bem sabemos - nunca temem por antecipação.

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Dedicado a todas às “meninas” que, assim como eu, volta e meia enfrentam o medo do desconhecido e os pesadelos que a vida por vezes nos traz.




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